
Poucas experiências na vida carregam o status de “indescritível”.
E ao procurar palavras para descrever os Labirintos de Veneza, defino que é realmente indescritível caminhar pela mágica teia de ruas daquela cidade.
Mesmo assim, vou tentar:
Em primeiro lugar, o mistério, sempre.


A cada pequena rua descoberta a sensação de suspense e até mesmo a impressão de estranhas lendas misteriosas, era palpável dentro do peito, que pulsava.
Estreitos becos, passagens secretas, silêncios do vento e de hora em hora o som dos sinos das catedrais, são reino livre para a sua imaginação.
Além de cada esquina uma surpresa de beleza decadente praticamente infinita.
Acredito que a combinação do ingrediente “decadente” ou a imperfeição é essencial para que a beleza não seja óbvia.
A medida que o óbvio não desafia.

Em Segundo, a minha noção de mortalidade é ativada perante a visão do tempo e seus fantasmas que lá viveram um dia.
Qualquer simples estabelecimento tem facilmente 300 anos, sendo nossa média de vida apenas 80 anos, me faz pensar como é breve nossa existência.
Caminhando através dos labirintos notei que na arquitetura de Veneza existem muitos elementos orientais destacados e sentia aqui e alí perfumes árabes, turcos, indianos da era bizantina.

Descobri que Veneza floresceu através do comércio, sendo o último portal entre o ocidente e o oriente.
Tão forte foram suas transações que La Sereníssima foi a cidade mais rica da Itália por 500 anos!
E com este rico comércio acontecendo em alto mar as histórias de piratas fazem parte do folclore veneziano assim como Lampião e o cangaço fazem parte do nosso.
Explorar labirintos perdidos num passado riquíssimo entre a neblina que desce no final da tarde, assistir as sombras que dançam sobre as águas, andar sem destino certo, ora adentro um pequeno antiquário, ora entro numa papelaria artesanal, depois tropeço numa loja de tapeçarias raras…assim, quase “extasiada”de tanto glamour, informação e mistério, levanto os olhos e eis que surge…a avenida mais Linda do mundo: o Grand Canal!
Define felicidade pra mim.

Pallazzos talhados em ouro, fachadas cobertas pelos mais nobres mármores, vitrais, escadarias colunas no melhor do estilo rococo, barroco, gótico, bizantino que saem literalmente de dentro da água do mar!


Que engenharia era esta que erguia palácios de sonho em cima da água do mar, há 900 anos atrás pra mim, é inimaginável.
Artes perdidas, literalmente.

Embriagados após tanta beleza, estamos com fome e vamos conhecer a casa de chá mais antiga da Itália, o Caffe Florian de 1720.
Nas últimas viagens venho pesquisando e colecionando chás e aprimoro meu conhecimento a cada viagem.

Não apenas isso, venho estudando o ritual e a etiqueta ao degustar um chá.
Noto que a presença de flores é um constante ingrediente em suas composições.
A ideia de beber flores é fascinante p/ mim, pela pureza que representa.
No chiquérrimo Caffé Florian, recomendo o Venetian Rose tea que é um delicado chá preto com pétalas de rosas, levemente bergamota.
Existe um item indispensável aos cardápios que acompanham chás, são leves sanduichinhos em pão de forma sem casca.
Amei o meu pedido que foi um sanduíche de pasta de camarões e caviar, a verdadeira perfeição.

O Caffe Florian foi inaugurado em 1720 é o café´mais antigo da Itália.
Situado na famosa piazza San Marco foi ponto de encontro de grandes personalidades européias como Goethe, Charles Dickens, Marcel Proust, Gabrielle D’Annunzio, Rousseau, Modigliani, Lord Byron e até o Don Juan mais conhecido de Veneza o Casanova, assim como é até hoje parada obrigatória para os carnavalescos em festa.

Lord Byron

Jacques-Emile Blanche, Portrait de Marcel Proust, 1892
Pequeno e aconchegante, com serviço impecável, não existe nenhum centrímetro desse café que não seja completamente bem decorado com afrescos, pinturas, espelhos e esculturas.

Acho chic uma pessoa incorporar na sua rotina diária, uma passagem pelo seu café de preferência e pedir sempre a mesma coisa; se puder ser o Caffé Florian então…


Japa veste cashcouer H&M, luvas Prada
A caminho de volta para o hotel, acreditando que já havia visto toda a beleza possível por um dia olho para uma vitrine de jóias e alguma peça me fez parar e olhar novamente.
Eram brincos, colares e anéis em formato de caveira e esqueletos em caixãozinhos com olhos de rubi, serpentes cravejadas de brilhantes, camafeus de crystal bisotado, broches de mouros com seus turbantes em ônix, muitas cruzes esmaltadas e lagartos tudo com aspecto de antiguidade como se fosse um baú de tesouros perdido.

Meus olhos brilhavam, literalmente.
Olho para a placa da loja que dizia “Codognato”; nunca ouví falar!
É um acontecimento quando uma “fashionista” como eu, digamos assim, descobre alguma grife nova.
Especialmente nesse caso, onde essa grife representa tudo o que eu gosto e admiro com fervor desde que me dou por gente.

Outro motivo que me deixa bastante feliz, é o fato dessa joalheria ainda ser uma empresa particular, nos dias de hoje chega a ser bastante raro.
Attilio Codognato, atual designer e proprietário vem de uma família de joalheiros situados exatamente no mesmo local, passando o aprendizado de pai para filho desde 1866.
Digamos que a esta altura da viagem já não podia mais cultivar tais esplendores, infelizmente.
Mas só pela descoberta já valeu a pena…pelo menos por enquanto.

