Perguntaram para o pajé Guarani o que ele ensina para seu povo.
Ele parou, pitou e soltou sem nhenhenhe, (em Guarani quer dizer papagaio tagarela), três ensinamentos: Tudo está ligado a tudo.
Tudo é processo e a Terra não é nossa.
Parece que o agronegócio, que as mineradoras, madereiras, companhias hidrelétricas, empresas transacionais e poder público corrompido, levaram esta afirmação da terra não ser Nossa, em benefício próprio, infringindo a própria constituição brasileira e fomentando um NHENHENHE sem fim nas decisões dos direitos indígenas.
A questão indígena ganhou maior notoriedade em 8 outubro de 2012 através das redes sociais, onde milhares de pessoas no Facebook, mesclaram seus nomes com Guarani Kaiowá, em solidariedade a este povo, que escreveu uma carta ao governo e à Justiça Federal, anunciando “morte coletiva” de 170 homens, mulheres e crianças Guarani-Kaiowá, em resposta a uma ordem de despejo decretada pela Justiça de Naviraí (MS), onde estão acampados às margens do Rio Hovy, aguardando a demarcação das suas terras tradicionais, ocupadas por fazendeiros, vigiadas por pistoleiros e financiadas por um poder que extrapola em milhares de kilômetros as fronteiras nacionais.
Em situação mais que precária o acesso a saúde, educação e outros serviços públicos, são dificultados ao extremo para os indígenas.
Um complô para expulsão deste povo comandado por uma elite local nada generosa.
Os Kaiowá são um dos povos da nação Guarani.
Divididos em Kaiowás, Mbya, Ñandeva.
Eles são nômades e procuram a terra sem mau, em algum lugar em cima do aqüífero Guarani, a maior reserva de água doce do planeta, batizada com o nome desta importante nação que já conhecia, intuitivamente, a abundância deste recurso natural vital.
Os Guaranis transitam, originalmente, nos Estados do Mato-Grosso-do-Sul, Espírito Santo, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, abranjendo também uma pequena parte da Argentina, Uruguai, Paraguai e Bolívia.
O Mato Grosso do Sul é uma região de terra super fértil e durante a ditadura militar, atraiu muitos sulistas, para ocupar a terra dos índios.
Desde de 1988, num movimento de redemocratização, eles aguardam e lutam a demarcação de seu legítimo território.
A situação dos Guarani-Kaiowá, segundo grupo mais numeroso do país (73.300), é considerada a mais grave.
Confinados em reservas como a de Dourados, encontram-se em situação de catástrofe humanitária: além da desnutrição infantil e do alcoolismo, os índices de homicídio são maiores que em zonas de guerra, como o Iraque.
Comparado à média brasileira, o índice de homicídios da reserva de Dourados é 495% maior.
Os índices de suicídio estão entre os mais altos do mundo: enquanto a média do Brasil é de 5,7 por 100 mil habitantes, nessa comunidade indígena supera os 100 por 100 mil habitantes.
O suicídio infantil é outro dado assustador, sendo entre os três maiores do mundo.
Isto mesmo, crianças que olham para frente e sem água, sem terra e vistos com olhos preconceituosos, enxergam um futuro indesejável e atentam sobre a própria vida de diversas formas.
Eles assistem as mulheres sendo estupradas, os jovens mortos, corrompidos ou mutilados, os tios embriagados, doenças e escassez de tudo, evangélicos queimando sua casa de reza…o que poderiam desejar?
No dia 30 de outubro de 2012, a Secretaria Nacional de Direitos Humanos informou que o governo federal conseguiu suspender a liminar que expulsava os índios de sua terra natal.
Esta é apenas uma batalha vencida por toda a população brasileira solidária.
No Brasil tem quase 900 mil índigenas de 340 etnias e 274 idiomas.
Representantes dos povos tradicionais que participaram de audiência na Comissão de Direitos Humanos em setembro de 2012, para discutir os problemas de suas comunidades e suplicaram pela revogação da portaria 303/12 da Advocacia-Geral da União (AGU), que atualmente está suspensa pela Justiça.
Pela portaria, os critérios utilizados na demarcação da reserva Raposa Serra do Sol valerão para todos os demais processos de reconhecimento de terras indígenas.
Com esta medida arbitrária, permite-se, por exemplo, que o governo instale em aldeias, estradas, hidrelétricas, linhas de transmissão de energia, e bases militares, sem autorização das comunidades.
“Se retirar as terras dos índios, é melhor matar logo e enterrar, porque sem terra, sem peixe, sem água, o índio não consegue viver”, afirma cheio de desgosto Raimundo da etnia Krenye.
Outro desrespeito pleno que os indígenas brasileiros estão sofrendo foi o pedido da bancada ruralista para que se crie uma comissão especial para analisar a Proposta de Emenda à Constituição 215/00.
A medida transfere para o Congresso a prerrogativa de reconhecer terras indígenas e de outros povos tradicionais.
Sendo aprovado, a demarcação das terras indígenas, quilombolas e de proteção ambiental, ficarão nas mãos dos interesses nacionais e transacionais focados, unicamente, no enriquecimento insustentável de suas empresas, fazendas e madereiras.
Esta decisão flagrantemente inconstitucional, além de violar uma cláusula pétrea da separação dos poderes, usurpa o poder executivo tranferindo a demarcação ao Legislativo e à Comissão de Constituição e Justiça, composta em sua macro esmagadora maioria por membros da bancada ruralista.
“Isso é tudo o que os ruralistas querem: que o Congresso tenha total controle sobre esses processos [de demarcação] para que as tramitações se arrastem infinitamente, aqui”, protestou o segundo vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos, deputado Padre Ton (PT-RO).
Este é o Nhenhenhe…
Enquanto isto o único grupo rapper indígena a gravar um cd no país o Bro MC’s, cantam um refrão:
Na cosmologia Guarani-Kaiowá, as áreas que já foram deles, são chamadas de tekoha (de teko – modo de ser – + ha – lugar, uma palavra que poderia ser traduzida como “lugar onde se pode viver do nosso próprio jeito”).
A alusão a esse “outro jeito de ser” demonstra que o movimento Guarani-Kaiowá é, sobretudo, uma reação cultural à imposição do estilo de vida dos Karaí (como os indígenas designam os brancos).
A sociedade mobilizada e ampliando a consciência de forma humanitária, acolhe os ensinamentos dos pajés que são figuras importantes na luta pela terra, eles fundamentam o sentido dessa ação política e social com profecias sobre o retorno dos tempos de fartura e alegria, a partir da recuperação do antigo território indígena.
Retomar um tekoha é voltar ao contato com os espíritos da terra e dos ancestrais, entendendo todo o desrespeito como parte de um longo processo, onde tudo está ligado a tudo na terra de todos nós.
Programa conexões:
Vídeo da Tv Folha que explica sobre o suicídio coletivo:































































































