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Arthur Mendes Rocha

TODAY’S SOUND: NATION POR ARTHUR MENDES ROCHA

Outro club que deixou muitas saudades em SP foi o Nation – localizado numa galeria da Augusta, o lugar foi o primeiro a ter a cultura clubber como forma de expressão máxima na noite paulista –  no final dos anos 80/início dos 90.

O lugar era simplesmente único, ali se reunia o povo mais underground da cidade, os mais modernos, os mais montados e aqueles que realmente queriam se acabar nas pistas tendo ao fundo as músicas mais bacanas.

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Flyer do 3º aniversário do Nation

Ele foi realmente um divisor de águas na noite, lá que começou mesmo a cultura clubber no Brasil e fui testemunha disto.

O embrião do Nation foi o Dandy’s Club, localizado na Brigadeiro Luis Antônio e tendo no comando uma turma que revolucionaria a noite paulista: Eloy W., Paulo Santanna, Renato Lopes, Daniel Almeida e Ulisses Cavassana.

Renato havia conhecido Paulo e Eloy quando tocou em algumas noites no Madame Satã.

Lembro que foi no Dandy’s que ouvi pela primeira vez house music e isto foi muito marcante na minha formação e no hábito de sair á noite para dançar.

Com o fechamento do Dandy’s, parte deste grupo procurou outra opção e se uniu a três sócios: Chiquinho (dono do Wal Show), mais os irmãos Tatá e Dedei; encontrando o lugar perfeito num porão da Rua Augusta, dentro da Galeria América, onde funcionava o Podium.

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Eloy e Cia. dariam a cara e a modernidade necessária para o lugar, chamando seus amigos, conhecidos e aqueles que faziam a noite acontecer. E não havia problemas com a orientação sexual de ninguém, o Nation era uma zona livre neste quesito, mesmo frequentado por muitos heteros, você já deveria deixar o preconceito (se este existisse) na porta.

O motivo principal de abrir o Nation era o de renovar a noite paulistana, dar às pessoas outras opções, que não fosse o gótico (que dominava nos anos 80) e sim uma coisa mais glamourosa, como os clubs de Ibiza, Londres, Itália, um lugar que fosse mais fashion.

Ida Feldman e Bebete Indarte, as hostess do Nation

Ida Feldman e Bebete Indarte, as hostess do Nation

As principais inspirações, segundo Mauro Borges, foram o Studio 54, o Café de Paris (Londres), a Plastic (Milano), além de marcos da cultura pop como ‘Saturday Night Fever” (Os Embalos de Sábado à noite) e a novela “Dancin’ Days”.

Eles chamaram para o staff da casa: Mauro Borges (que acabava de voltar de uma temporada em Milão e estava cheio de ideias), Bebete Indarte (recém chegada de POA e era uma das hostess do lugar), mais Ida Feldman,, Regina Rambaldi, Maria de Los Angeles, Zeca Andrade (que fez alguns dos flyers de lá, bem como do Massivo), Alexandre Vulnávia (que trabalhava na chapelaria com Zeca), entre outros.

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Bebete Indarte e Eloy W.

Eloy era uma figura ímpar, sempre montado nos modelitos mais exuberantes; logo fiquei amigo dele e nos dávamos super bem – ele fazia questão da minha presença em seu club e nunca paguei para entrar lá, além de ter um ótimo papo. Mas se ele não ia com a tua cara, saia da frente…

Renato Lopes tocava as últimas novidades europeias e americanas, com predominância de house e suas vertentes, preferindo as coisas mais experimentais e diferentes, mas a pista do Nation era democrática, só não podia tocar música ruim.

Renato Lopes (ao lado dele Marquinhos MS)

Renato Lopes (ao lado dele Marquinhos MS)

Mauro dava um toque mais pop ao som, tocando muita Madonna, disco, o house que bombava na Europa e fazendo suas performances no meio da noite (que incluía muito vogue dancing).

Mas para entrar no Nation, você tinha que passar pela galeria e ali se concentrava um super fervo que te animava para adentrar ao club, descendo as escadas e chegando ao subsolo.

Várias personalidades da noite, muita montação, muito papinho e babados tornavam a noite ainda mais incrível, pois você sabia que no Nation não havia noite ruim, era sempre mega divertido.

O projeto arquitetônico foi de Walter Rodrigues (hoje um famoso estilista) e que na época ajudou o Nation a ter a sua própria cara.

Eloy com Walter Hormann

Eloy com Walter Hormann (namorado de Bebete na época e também DJ)

Uma das coisas que eles queriam é que a pista fosse clara e que todo o club tivesse claridade, para as pessoas se verem, se paquerarem, se observarem.

Walter também foi o responsável por criar o nome do lugar: Nation Disco Club.

O club possuía colunas brancas, bar com balcão e mais sofás e mesinhas, antes de se chegar à pista, que podia ser percebida como um aquário, inclusive, mesmo não entrando, dava para ver como estava a pista e apoiar por ali o seu drink numa das ‘janelinhas” da pista (que possuíam aparadores).

Bebete com algumas frequentadoras do Nation, entre elas Kátia Miranda

Bebete com algumas frequentadoras do Nation, entre elas Kátia Miranda

Na pista propriamente dita haviam módulos pintados de preto, onde as pessoas podiam subir e dançar (como pequenos tablados) havia também um palquinho, onde ficava a cabine do DJ.

O banheiro era um bafo só, pois era unissex e lá rolava vários babados.

O globo do Nation (cortesia de Mauro Borges)

O globo do Nation (cortesia de Mauro Borges)

O Nation abriu suas portas em 1987, no momento em que a house music era a grande novidade, bem como suas ramificações como o acid e o balearic (ritmo inspirado em Ibiza).

Além de Renato e Mauro, tocaram também por lá o Camilo Rocha e o Rui Albuquerque (que ficava responsável pelas matinés de domingo).

Entre as pérolas que lá fizeram a sua estreia nas pistas brasileiras estavam:

Yazz – ‘The Only way is up”:

Neneh Cherry – “Buffalo Stance’:

S-Express: ‘Superfly guy”:

Ofra Haza: “Im Nin’alu’:

Soul II Soul: “Keep on movin’”:

Caroline Loeb: “C’est la ouate’:

A pista era uma festa só; além de encontrar amigos, conhecidos, figuras da noite, modelos, estilistas, produtores de moda, estudantes, atores, músicos, designers; o lance era causar e arrasar nos modelos e fazer muita coreografia na pista, afinal foi lá que se dançou vogue pela primeira vez nas pistas brazucas.

Entre o povo que frequentava estavam Alexandre Hercovitch, Marcos Morceff (que lá promoveu várias festas do seu brechó, Universo em Desfile), Marcelo Rosembaum, Carlito Contini, Mario Mendes e muitos outros.

A capacidade da casa era de 400 pessoas, mas o público acabava chegando muitas vezes perto das 800 (especialmente no verão).

Aconteciam também festas temáticas, como as de quinta-feira, com muita ferveção, drags e a diversão sem compromisso. Uma das festas mais divertidas era a noite do Modelão, onde os clientes levavam nota pelo seu look.

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Outro lance originado no Nation foi o Que fim levou o Robin, o primeiro grupo de e-music no Brasil, cujo primeiro show foi naturalmente no club, e era formado pelo Renato (que saiu logo no começo), Mauro, mais Bebete, Claudia Pinheiro e Elis Gritaria (Liss Leal). No começo, quem dançava vogue com o Mauro eram Eloy, Bebete e Shina Sekini.

O que fim levou o Robin em sua formação original

O que fim levou o Robin em sua formação original

 

A produção ficou a cargo de Dudu Marote, que também comandava os teclados com James Müler na bateria.

O QFLR teve um grande hit com a música ‘Aqui não tem Chanel” (votada a música do ano pela Bizz em 1990) e se apresentou no DMC Championship, ao lado de grupos de sucesso da época como Inner City e Snap. Abaixo o grupo se apresenta no Programa Viva a Noite:

Além desta, eles também lançaram a música “Tia, um dia você vai ser” (também incluída no álbum deles) que talvez seja o único registro em vídeo da entrada do club, as escadas, a pista aquário, as janelinhas; enfim, é para matar as saudades do Nation ao assisti-lo:

O club se manteve sempre movimentado até o ano de 1991, período de turbulência para o local, pois Eloy e Paulo foram diagnosticados como portadores de HIV.

Com este diagnóstico, tudo mudou, já que eles eram o que mantinha o club na ativa, Paulo gerenciava o lugar, Eloy era quem comandava a noite à sua maneira; quando eles se foram, não tinham mais como manter o Nation funcionando.

O grupo original formado por Renato, Mauro, Bebete, etc. acabaram saindo em 1991 e o Nation fechou em 1992.

Em 2010, o Nation teve um revival no mesmo local, mas de curta duração.

De vez em quando, acontecem algumas noites comemorativas de aniversário do club, em lugares como na Nostromundo e no Mono, onde no ano passado houve a comemoração de 25 anos.

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O Nation ficará para sempre na memória dos que o frequentaram; quem ia até lá, acabava virando assíduo e mesmo hoje, anos após seu fechamento, ele continuará a ser um dos clubinhos mais legais que a cidade já teve.

Sua importância no comportamento de toda uma geração será para sempre sentido e muito que a cultura clubber viveu e se desenvolveu por aqui, se deve muito ao Nation.

 

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TODAY’S SOUND: ROSE BOM BOM POR ARTHUR MENDES ROCHA

Depois de falarmos de alguns clubs internacionais que marcaram época, esta semana nos dedicaremos aos clubs nacionais, especialmente os da noite paulistana.

Começaremos por um dos primeiros clubs que conheci ao chegar em São Paulo, em 1987, e que era o lugar para ver e ser visto: o Rose Bom Bom.

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O Rose era localizado na Rua Oscar Freire, nº 720, na Galeria Femina, em frente à Churrascaria Rodeio, no coração dos Jardins. Conforme as mudanças no lugar, a entrada poderia ser tanto pela Oscar como pela Haddock Lobo.

Angelo Leuzzi era o dono de lá e o Rose era para ser uma lanchonete, abrindo pela primeira vez para almoço em janeiro de 1983.

A decoração era toda em preto e branco, o chão era quadriculado, as mesas com toalhas de vinil roxo, sofás de vinil, persianas pretas, caixas de som, máquinas de fliperama, bar e tinha até uma pequena loja lá dentro.

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A lojinha tinha novidades importadas trazidas por Neride, outra figura importante na cena e que contribuiu muito na concepção da casa; por ser muito viajada (ela ia para a Europa cinco vezes por ano, além de Tailândia e Marrocos), ela estava sempre antenada nas novas tendências e modismos que aconteciam fora do país.

 Voltando ao Rose: como ninguém aparecia no Rose para comer, Leuzzi teve a ideia de abaixar a luz, aumentar o som e chamar os amigos; pronto, surgia aí um novo lugar para dançar e se divertir na noite paulistana.

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 A casa abriu oficialmente suas portas em 20 de janeiro de 1983, com uma big festa que parou SP.

 Na época haviam mais pubs (como o Victoria Pub) e o conceito de discoteca já andava ultrapassado; quando pediu para denominar o seu espaço, Leuzzi citou uma de suas inspirações, o Danceteria de NY, assim o espaço foi denominado de danceteria (coisa que se espalhou aos montes Brasil à fora). 

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A casa era toda envidraçada e na galeria havia luzes de neon coloridas, que ao abrir as persianas, invadiam com sua luz a pista (lembrando que Leuzzi abria e fechava as persianas para ter este efeito e nada podia dar errado, como algum desavisado fechar as persianas).

 No começo, o som era feito pelas fitas cassetes gravadas pelo próprio Leuzzi, até que, junto com seus amigos Coquinho e Claudio Deleu (um ótimo guitarrista), eles criaram os Rockat’s, que era a banda da casa e tocava lá duas vezes na semana.

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 Outra das apostas do Rose foi o Azul 29, cultuada banda que fazia shows direto por lá e que foi das primeiras bandas brasileiras de new wave, com seus teclados eletrônicos e que tiveram sua música “Vídeo Game” incluída na trilha de “Bete Balanço”:

 

O Rose era frequentado por uma variada fauna que incluía punks, playboys, modelos, modernos, estudantes, góticos, artistas, gente da sociedade, enfim, o legal era justamente esta mistura de pessoas que fazia o lugar ser especial. Era interessante ver punks ao lado de gente saída do Gallery para os famosos cafés da manhã, que o Rose oferecia aos seus frequentadores ao final da noite.

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 Além disso, o club possuía um pequeno palco por onde passaram algumas das bandas mais interessantes dos anos 80, todas elas em início de carreira, como o Legião Urbana, Gang 90, Voluntários da Pátria (banda pré-Ira), Picassos Falsos, o próprio Ira, Capital Inicial, Titãs (que ficavam apertados no pequeno palco, pois eram em 08 integrantes), Violeta de Outono, Paralamas do Sucesso, Kid Abelha, Ratos de Porão, Ultraje a Rigor, Lobão e os Ronaldos, Kid Vinil, As Mercenárias, Cólera, Inocentes, Brylho, Engenheiros do Hawaí, entre outros. 

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Voluntários da pátria, banda pré-Ira da qual Nasi (primeiro á esq.) participava

A música que tocava também era um dos grandes atrativos do lugar, já que apostava em vários estilos, passando por punk, new wave, EBM, synth, new romantic, rock gótico, hip-hop (foi dos primeiros lugares a tocarem black music nos Jardins) até chegar na acid house e num estilo mais eletrônico, que começava a despontar na época final da casa.

 Os estilos musicais eram bastante variáveis e englobam um grande período, de 1983 a 1990, portanto procuraremos destacar algumas músicas dentro deste enorme espectro, tais como:

 Liaisons Dangereuses – “Los Niños del Parque”:

Marrs – “Pump up the volume”:

Bomb the Bass – “Beat Dis’:

 The Sisters of Mercy – “This Corrosion’:

 Mantronix – “Who is it’:

 

 Steve Silk Hurley – “Jack your body’:

 

Love & Rockets – “Ball of Confusion’:

 

 O cast de Djs incluía, além de  Leuzzi, Otavinho Neto, que foram os primeiros DJs a comandarem o som. Aos poucos, foram sendo agregados mais DJs como Jayme Punk, Serginho e até o Alex Atala, frequentador assíduo, antes de pensar em virar um chef famoso, e que também fazia fitas cassete para vender. 

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Além destes, depois vieram Ricardo Guedes, Marquinhos MS (DJ já falecido e que marcou época, abrindo os caminhos para a geração que viria a seguir) e Magal, que permaneceu até o final.

 O staff do Rose era outra atração, a começar pelo Zé Preto, o segurança que ficava na porta liberando àqueles que conhecia, o Zé Maria (gerente), o Gigio (no caixa), enfim, o Rose era como uma grande família, nos sentíamos protegidos e parte daquele grupo. 

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Os flyers de lá eram feitos pelos mais diferentes colaboradores e vários foram feitos por uma figura lendária da noite paulistana, Marcelo Ferrari, a Marcelona, como a arte abaixo (cedida gentilmente para este post), utilizando desenhos, colagens e o que a época, sem computadores, oferecia:

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Em outra reforma, o club possuía também uma parte mais reservada no bar, todo em alumínio, com sofás de couro preto e onde se podia conversar e paquerar.

 Várias pessoas da noite, da vida cultural de SP frequentavam o Rose tais como Patricio Bisso, Cláudia Liz, Grace Gianoukas, Edgar Scandurra, Raul Cortez, Guiherme Isnard, Julia Lemertz, enfim, era um casting enorme e que trocava noite após noite.

 Na pista, você podia cruzar com produtores musicais, cantores, modelos, socialites, jornalistas, enfim, era uma mistura interessante e que tornavam as noites ainda mais excitantes. 

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Além disso, o espaço abrigava desfiles de moda (como da hypada marca de cosméticos Liquid Sky), intervenções artísticas, performances, além de passar vídeos inéditos e que só conseguíamos ver lá.

 O Rose fechou suas portas em agosto de 1990, com a mega festa ‘Rose Bom Bom na Chom’, tendo um lambe-lambe (de co-criação de Leuzzi e Diego Zaragoza) espalhado pelos Jardins e redondezas com os nomes das pessoas que foram importantes para a casa e com a seguinte frase no final: ‘a você e a tantos outros que por aqui passaram, Obrigado Rose foi Bom”.

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Foto do lambe-lambe de despedida do Rose. Cortesia de Angelo Leuzzi

 O club teve um revival em 2005, quando abriu uma nova versão do club no terraço da Galeria Ouro Fino, mas que durou pouco tempo devido a exigências de segurança e barulho.

 O Rose acabou abrindo também uma versão na Vila Madalena, mais dedicada a festas de black.

 A importância do Rose para a vida cultural brasileira nos anos 80 foi essencial, trazendo as novidades musicais que rolavam lá fora, os modismos, além de apresentar as bandas efervescentes da época; ele tirava o underground do gueto, nos sentíamos parte de uma fase especial da noite e que ficará para sempre em nossa memória.

 

 

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TODAY’S SOUND: TRADE POR ARTHUR MENDES ROCHA

A Trade é uma verdadeira instituição inglesa, pois foi o primeiro club after-hours legalizado, com uma licença especial de música e dança, podendo funcionar 24 horas sem parar, além de ter mudado para sempre a cena clubber mundial.

A noite começou em 1990, no Turnmills, um pub localizado em Islington, zona central de Londres, e que se transformava nas madrugadas de sábado num dos lugares mais fascinantes para se dançar neste dia e horário.

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Lembro que o lugar simplesmente se transformava quando descíamos as escadas e adentrávamos naquele basement: antes de chegar na pista, passávamos por corredores, pelo balcão do bar, com cada canto tendo o seu próprio código.

Numa parte ficavam os gays musculosos, geralmente sem camisa, noutro ficavam os traficantes, vendendo drogas como êxtase, cocaína, speed, entre outras.

O legal era que a Trade era uma mistura das mais variadas tribos, a predominância era gay, mas heteros também frequentavam, além de várias classes sociais; drags, michês, travestis, trabalhadores, leather-boys, enfim, era uma noite democrática.

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Para entrar, não havia uma door policy específica, ou iam ou não iam com sua cara, com seu estilo, enfim, era uma incógnita se você conseguiria mesmo entrar.Além disso, se formavam filas enormes na porta e estava sempre cheio, não importava a hora que fosse.

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Reza a lenda que Cher, Axel Rose e outras celebridades tiveram seu acesso negado, pois exigiram tratamento VIP, com entrada diferenciada e a Trade justamente era contra este tipo de exigência.

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Mas por lá estiveram Madonna, Björk, David e Victoria Beckham, além de drags vestidas de Lady Di e Grace Jones, que deixaram o público enlouquecido.

23rd birthday party for Trade gay club night at Egg nightclub, York Way, King's Cross, London, England, UK.

Laurence Malice era quem comandava a noite- ele foi idealizador da Trade, foi ele que batalhou com as autoridades inglesas para lhe permitirem ter um club funcionando das 4 da manhã de sábado a uma da tarde de domingo; um lugar para os gays irem e se sentirem mais protegidos e seguros (estamos falando de uma época que vigorava a Section 28, uma lei que não permitia aos gays de “promover” a homossexualidade publicamente).

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Antes da Trade, Malice fazia afters ilegais no club Sauna, em Kentish Town.

Outro grande diferencial da Trade era sua excepcional qualidade sonora e a iluminação perfeita, cheia de lasers incríveis que faziam desenhos, mudavam de cores e tudo regado ao hard house de Tony De Vit, o DJ residente.

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Tony era de tal forma reverenciado, que ir à Trade era como uma espécie de culto, uma igreja e ele era o pastor, dominando a todos com sua música.

Além de Tony, outros DJs que tocavam lá direto eram Allan Thompson, Smokin’ Jo, Malcom Duffy, Martin Confusion, Tall Paul, Steve Thomas, Pete Wardman, Blu Peter, Rachel Auburn, entre outros.

Algumas das músicas que não podiam faltar na Trade eram:

“Age of Love” – Age of Love (remix de Tony de Vit):

“Raise your hands” – Knuckleheadz

“Rock Da House” – Tall Paul

“Into your mind” – Christian Hornbostel

‘Le voie Le soleil” – Subliminal Cuts

Como o próprio Malice afirmava, o som da Trade é um techno mais camp, mais gay, que acabou se transformando no hard house.

E sim, o som era perfeito, combinava com toda aquela atmosfera, era pesado, os BPMs lá em cima, mas era bem dançante e a pista não parava até o final, todos dançando, sorrindo, revirando os olhos, se mordendo, mas se divertindo.

Abaixo, um documentário sobre o club, “The all night bender”, produzido pelo Channel 4:

A Trade também possuía seus característicos flyers, desenhados pelo Trademark (como se intitulava o designer gráfico Mark Wardel), cada um tinha uma cara especial, chamavam atenção por seus desenhos e o seu logo no formato de uma cápsula.

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Outra imagem que fazia sucesso entre os frequentadores era a do ‘Trade babies”

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Ir á Trade era uma experiência inesquecível; o club possuía licença para vender bebida alcoólica na madrugada, e logo se tornou o lugar favorito do público gay que procurava uma noite diferenciada, onde o que importava era dançar música boa e que combinasse com toda aquela loucura.

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O décor também era todo idealizado por Malice, que não media esforços para disfarçar o décor original do Turnmills, que era bem cafona.Além disso, a preocupação com o som era absurda, cada ambiente possuía seu próprio sistema de som, com equalização e clareza eficazes, tudo para que ninguém ficasse parado.

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A partir de 1995, a Trade passou a excursionar por outros países como Ibiza, Japão, África do Sul, NY, além de participar de eventos de dance como o Summer Rites e a Love Parade inglesa.

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Neste mesmo ano, Tony lançava seu primeiro single, “Burnin’ up”, com um remix feito especialmente para a Trade:

Os CDs da Trade também eram altamente disputados, a gravadora React costumava lançar as coletâneas do club, bem como as antologias Reactivate, com os hits que dominavam as pistas de lá.

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Porém,em 1998, o DJ Tony De Vit faleceu aos 40 anos, de uma bronquite, agravada por ele ser HIV positivo e na época o tratamento não era tão eficaz.

A morte dele trouxe um declínio para a Trade, já que ele era uma figura carismática e seu som jamais conseguiria ser igualado.

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Num episóido de “Sex & the City”, Carrie e cia. vão até uma noite da Trade em NY; a cena tem certos exageros e é de outra fase, mais comercial…de todo jeito fica o registro:

Em 2002, a Trade encerrou sua noite semanal na Turnmills, voltando para lá em algumas ocasiões especias, até que a Turnmills fechou suas portas de vez em 2008.

Em 2003, Malice abriu a Egg, onde houveram algumas edições da Trade, incluindo a realizada em outubro deste ano, a que completou 25 anos de Trade, e que foi o último evento a ser realizado levando o nome do famoso after-hours.

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Também este ano, está em cartaz em Londres, a exposição ‘Trade: Often Copied, Never Equalled” que fica em cartaz no Islington Museum até 16 de janeiro de 2016.

A Trade nunca será igualada, foi um club especial para aquele momento da noite inglesa; hoje com o fechamento de vários clubs por lá, ficam as memórias de noites mágicas para quem viveu tudo aquilo e posso falar de cadeira – a Trade foi o melhor club gay de todos os tempos

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TODAY’S SOUND: THE LIMELIGHT POR ARTHUR MENDES ROCHA

O Limelight foi um dos clubs mais inusitados que já existiram, a começar por ser dentro de uma Igreja, o que lhe dava uma ambientação especial e muitas histórias incríveis aconteceram lá dentro, entre elas bafos com o seu proprietário e um famoso crime entre os club kids que lá frequentavam.

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O club ficava localizado na Avenue of Americas, West 20th Street e abriu suas portas pela primeira vez em 1983, sendo frequentado por uma variedade de celebridades que incluíam Andy Warhol, Madonna, Mick Jagger (que lá comemorou seus 40 anos), Rod Stewart, Wiliam S. Burroughs (que lá comemorou seu 70º aniversário), Billy Idol, Matt Dillon, Prince, Mark Wahberg, Vin Diesel, Leonardo Du Caprio, Chloë Sevigny (ela mesma uma club kid) e muitos outros.

William S. Burroughs e Madonna na Limelight

William S. Burroughs e Madonna na Limelight

Seu proprietário era Peter Gatien, empresário da noite nova iorquina famoso por usar um tapa-olho; durante algum tempo ele foi chamado de o Rei da Noite, quando era dono da Limelight, mais Tunnel, Club USA e Palladium.

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O primeiro Limelight a abrir foi, na verdade, o da Florida e também chegou até a ter filiais em Londres, Chicago e Atlanta; todas elas localizadas em antigas igrejas.

Mas é do Limelight dos anos 90, e que tive a oportunidade de frequentar, que falaremos neste post.

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O club era cheio de ambientes, com basements, mezzaninos, catacumbas, salas de videos, sala VIP, por onde dealers vendiam suas drogas e o povo se acabava na pista. Além disso, acima da pista havia gaiolas, onde go-go dancers dançavam (concepção de Gatien).

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Nos início dos anos 90, a Limelight era um dos lugares mais badalados de NY, pois lá aconteciam festas e shows inesquecíveis, priorizando muito techno, house, gótico e rock industrial, dependendo da noite.

Fila enormes se formavam na frente, todos queriam participar daquela loucura e lá dentro a coisa era bafônica mesmo, lembro de clubbers convivendo com góticos, roqueiros, skatistas, os que curtiam hip-hop, e lá dentro rolava muita pegação e colocação totais.

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O grande achado de Gatien foi fazer seu club numa igreja Episcopal do séc. XIX, gastando uma fortuna para torná-la um lugar ainda mais atraente.

O design de luz e o som eram fantásticos, com uma pista com pé direito alto, janelas com vitrôs, uma mistura de gótico com a mais nova tecnologia da época.

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Em uma de suas encarnações, o Limelight chegou a ter uma sala VIP criada por H.R. Giger, o incrível designer suíço que criou o monstro de ‘Alien’ de Ridley Scott.

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No filme “Bad Lieutnant” de Abel Ferrara, há uma cena feita na pista de dança do club, com Harvey Keitel:

Entre as bandas que por lá se apresentaram estavam Guns N’Roses, Cabaret Voltaire, Aphex Twin, Dear or Alive, The Cramps, Nina Hagen, Marilyn Manson, Peter Murphy, Pearl Jam, Nine Inch Nails e muitos outros.

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Os chamados club kids eram os jovens que iam para lá se divertirem, totalmente montados em modelitos absurdos e sem limites para terem uma noite impecável, seja regada a muitas drogas e muitos bafos. Abaixo vemos cenas do club em 1991, com filas na porta e cenas ótimas do interior do club:

O líder dos club kids era Michael Alig, promoter das melhores festas que lá aconteciam e amigo de Gatien, e também James St. James, outra figura do folclore noturno de NY. Gatien deixava Alig fazer o que desejasse, os temas mais extravagantes eram permitidos, misturando performance, fantasias, decorações ultrajantes, após ele provar que tinha o seu público e enchia o lugar.

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Foi Alig que tornou o lugar “in” novamente, pois desde o final dos anos 80, o club vinha perdendo frequentadores. Eles passavam a ser “the talk of the town”, inspirando estilistas e formando uma nova cena com nomes como RuPaul, Amanda Lepore e a marca de roupas Heatherette (de Richie Rich e Traver Rains), entre outros.

Aos poucos, o Limelight foi se tornando famoso pelas festas inusitadas e pelo seu público doidão, além da música, que era pesada e dançante, combinando bem com a atmosfera dark que por lá reinava.

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A pista do Limelight fervendo, no palco podemos avistar Amanda Lepore (praticamente nua)

Porém, em 1996, Alig assassinou seu dealer, Angel Melendez, que venerava Alig, mas este o desprezava e só desejava uma coisa em troca: drogas.

Êcstasy, cocaína, Special K., heroína eram as estrelas da noite e Alig e sua turma adoravam se colocar e ir dançar na Limelight, porém, muitas vezes, ficavam devendo para Melendez e o humilhavam, pois ele era latino, de classe mais pobre e queria ser parte da turminha de Alig, porém este o desprezava; seja por sua maneira cafona de se vestir ou não concordarem com sua opinião.

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Até que numa noitada na casa de Alig, ele e seu amigo Freeze acabam matando Melendez a marteladas, sem se darem conta, a não ser sete horas depois. Para se livrarem do corpo, eles esquartejam-o e atiram suas partes, dentro de uma mala, no Rio Hudson.

Fora um assassinato frio e cruel e Alig acabou pagando por isso; ele foi descoberto e condenado à 17 anos prisão (ele foi solto no ano passado).

Peter Gatien and Michael Alig no Limelight em 1991

Peter Gatien and Michael Alig no Limelight em 1991

Toda esta história macabra foi o tema do filme “Party Monster’, lançado em 2003, e tendo Macaulay Culkin (como Alig) e Seth Green nos papéis principais.

Com toda esta exposição na mídia, Gatien e seu club viraram o alvo preferido da imprensa sensacionalista da época, gerando uma investigação profunda nas contas dele e o que se passava dentro da Limelight acabou vindo à tona e chocando a ala mais conservadora, que consideravam o lugar como o paraíso das drogas.

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Além disso, o governo de Guliani, na época, procurava fazer uma ´limpeza´ na noite nova-iorquina e utilizou Gatien como exemplo, fechando seus clubs e o tornando alvo de investigações.

Algumas das noites que mais atraíam público no Limelight eram: Disco 2000 (a festa organizada por Alig, nas quartas), Future Shock (sexta/sábado) e Rock N’Roll Church (domingos).

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Uma das atrações que Alig organizava era ´What´s your line`, onde carreiras brancas eram esticadas no chão e os andidatos deveriam descobrir de que droga se tratava (podia ser desde cocaína até Ropinol).

Outras das loucuras era servir punch feito com ecstasy servindo os `fieis`que frequentavam o club, que chegavam mais cedo para já estarem drogados para dançarem a noite inteira.

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Steve Lewis era o diretor da Limelight no início dos 90 e foi ele o responsável por “refazer’ o club para um novo público, promovendo noites especiais que incluíam exposições de arte, desfiles, tornando o club moderno e fabuloso.

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Os club kids com o colunista da noite de NY, Michael Musto

Para entrar na Limelight, você devia caprichar mesmo no visual, a política para entrar era ser moderno, ser criativo no vestir, ter uma atitude de quem só estava lá pela diversão e dançar até cair. O lance era jamais ouvir a frase: ´you look like a tourist´(você parece um turista).

Limelight

Alig costumava lembrar o melhor horário do Limelight: entre 4 e 6 da manhã, quando a maioria do público já tinha ido embora e só quem ficavam eram os club kids, as drags e os transexuais, dançando alucinadamente, enquanto o sol podia ser avistado das janelas transparentes do club.

O club chegou até a ter entradas diferentes para o público gay que não queria se misturar com os héteros ou os mais caretas.

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Foi Gatien que levou Paul Oakenfold (quando este era um DJ underground) para tocar nos EUA pela primeira vez, ele queria trazer ao público americano as novidades da música eletrônica londrina.

Os EUA viviam o auge de cultura rave do início à metade dos anos 90, atraindo DJs como Moby, Steve Aoki, Frank Bones, David Morales, Junior Vasquez, entre outros.

Algumas das músicas que não podiam faltar na Limelight eram:

‘Go’ de Moby:

Charly” do Prodigy:

´Plastic Dreams´ de Jaydee:

´Everybody’s Free” de Rozalla:

Don’t you want me’ de Felix

Com todo o escândalo do crime de Melendez, a Limelight fechou em 1997 e reabriu algum tempo depois, sob o novo nome de Avalon, mas nunca tendo o mesmo sucesso do início dos anos 90.

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O club fechou suas portas de vez em 2007, e Gatien e seu club viraram tema do documentário “Limelight”, lançado em 2011, com produção da filha dele, Jennifer Gatien. Abaixo o link com o doc completo:

Hoje Gatien reside no Canadá, depois de ter sido deportado em 2003 por evasão de taxas.

Na Igreja onde era a Limelight hoje é um shopping mall, triste fim para um dos clubs mais instigantes de NY e que marcaram a cena americana de dance music dos anos 80 e 90.

 

 

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TODAY’S SOUND: THE HAÇIENDA POR ARTHUR MENDES ROCHA

E o club de hoje é uma referência cultural, pertencia á uma gravadora, não dava lucro, mas marcou toda uma geração que por lá se acabou ao som da acid house: estamos falando do Haçienda!!! fac51111111111 O Haçienda foi um delírio de Tony Wilson (dono da gravadora Factory) e Rob Gretton (empresário do Joy Division), que resolveram fazer um club para os jovens, gastando uma grana que incluía os royalties do New Order (que acabaram se tornando um dos donos do club). O club abriu em 1982, em Manchester, no interior da Inglaterra, numa zona cinzenta e fria, com poucas oportunidades de trabalho e de diversão. hac2   O Haçienda foi inspirado em clubs como o Danceteria e o Hurrah’s, lugares que faziam sucesso em NY. Wilson queria trazer a vibe nova-iorquina para a pacata Manchester, quando o hip-hop estava surgindo, o electro e a disco conviviam em harmonia e gêneros como o house e techno davam seus primeiros passos. fac_51_hacienda-359011 Abaixo, um mini documentário sobre o Haçienda, com o filho de Tony Wilson: No começo, o club vivia vazio, pouca gente frequentava, apesar da escolha musical ser sempre underground, apostando em diferentes estilos, mas sempre misturando referências interessantes que iam de James Brown a Iggy Pop. Inclusive, foi no Haçienda que muitas bandas inglesas dos anos 80 fizera shows enquanto não eram famosas como o próprio New Order, mais Culture Club, Frankie Goes to Hollywood, Quando Quango, Cabaret Voltaire, e muitos outros. hac5 Artistas que estavam iniciando, como Madonna, além de Afrika Bambaata, Divine, ESG, Peech Boys, Mantronix, também fizeram show por lá. Por ser uma cria da Factory Records, o Haçienda até tem um número de catálogo, o FAC 51, que estava descrito em sua fachada na época. hac1 O designer das icônicas capas da Factory, Peter Saville, indicou seu amigo Ben Kelly como arquiteto e a concepção do projeto foi minimalista, com uma pista grande, colunas pintadas com listras pretas e amarelas, como se fosse uma fábrica, pé direito alto, luzes estrategicamente posicionadas; tudo muito urbano e moderno. hac4 Sem dúvida, o design é lindo e virou um ícone com o passar dos anos. A cabine do DJ costumava ficar escondida, onde só se enxergavam os pés das pessoas, mas esta acabou tendo seu local modificado quando o DJ acabou ganhando cada vez mais importância. O Haçienda é cheio de histórias incríveis, foi um local muito especial, e um dos DJs que lá reinou foi Mike Pickering (integrante do Quando Quango e mais tarde do M. People). hacienda mike Pickering foi quem se antenou para tornar o local um dos melhores lugares para se ouvir a então house music, com sua vertente mais soulful, que misturava R&B, Disco, Gospel, tudo com batidas eletrônicas, irresistível para as pistas de dança. Além de Pickering, outros DJs como Graeme Park (recentemente falecido), Dave Haslam,  Jon Da Silva, Laurent Garnier, Greg Wilson, vários passaram pela cabine do Haçienda. Abaixo, em homenagem a Graeme Park, um dos grandes pioneiros da cena, um set gravado por ele (junto com Pickering) dentro do Haçienda: Um das noites de maior sucesso era a de sexta-feira, a Nude, capitaneada por Mike Pickering e que atraía multidões que vinham conhecer os novos lançamentos de house.

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Bez, do Happy Mondays, na noite “Nude’.

Esta época, entre 1986 e 1988, foram os verdadeiros anos de auge do Haçienda. O acid house começou a tomar conta, os jovens só queriam saber de ouvir este tipo de música, o ecstasy assava a ser a droga do momento e viver esta experiência no club tornava tudo mais especial. A Inglaterra vivia o Summer of Love, as raves bombavam e o Haçienda era “the place o be” (o lugar para se estar). Hacienda-Birthday-010 A mistura destas batidas, os dubs, o bass, os vocais, mais o calor humano tornava uma ida no Haçienda algo essencial, assim o club começava a atrair pessoas de toda a Inglaterra, do resto da Europa e do mundo. Outra noite bacana era a Hot, que procurava trazer o clima balearic de Ibiza para o club, colocando uma piscina no meio da pista (isto em plena quarta-feira de cada semana). haçienda dancefloor Outro grupo que lá fez sua história foi o Happy Mondays, que viria a assinar com a Factory, e se tornar o representante máximo da chamada cena Madcester, que misturava indie rock com dance music; uma das tracks que os tornaram os queridinhos do momento foi o remix de Paul Oakenfold para “Wrote for Luck”: Aliás, o legal no Haçienda era poder dançar em qualquer lugar, haviam noites tão cheias que o povo dançava no palco, nas bancadas, fosse onde fosse – o importante era curtir a música com tudo. Algumas das músicas que não podiam faltar no Haçienda eram: “Let the music play’ de Shannon:  “This Brutal House” de Nitro Deluxe:  “I’m in love” de Sha-Lor “Where love lives” de Alison Limerick “Strings of Life” de Rhythm is Rhythm ‘Can you feel it” de Mr. Fingers: Vários músicos e DJs frequentavam o Haçienda, mesmo antes de pensarem em se dedicar a isto profissionalmente. É o caso de Gerald Simpson, que acabou por lançar um dos clássicos do acid house, “Voodoo Ray”, assinando como A Guy called Gerald. Além dele, outros frequentadores eram o Graham Massey, do 808 State, e também o Chemical Bothers, que dá um depoimento no vídeo abaixo: Mas as coisas começaram a dar uma esfriada quando houve a morte de uma pessoa em decorrência do ecstasy dentro do club. Isto trouxe um marketing negativo ara o lugar, bem como uma crescente onda de violência, já que as gangues que controlavam o tráfico de drogas utilizavam o local para demonstrações de poder, acabando por prejudicar a frequência. Até os seguranças e DJs passava a ser ameaçados com armas, até que Tony Wilson resolver fechar o local, em 1991, só reabrindo cinco meses depois, colocando câmeras e deixando o club mais seguro.

Flyers do Haçienda

Flyers do Haçienda

O Haçienda conseguiu sobreviver até 1997, mas nestes anos, ele nunca mais foi o mesmo dos tempos áureos, a vibe já não era a mesma. O club acabou fechando e dando lugar a um prédio de apartamentos de luxo, mantendo o mesmo nome.

Fachada do Haçienda hoje em dia.

Fachada do Haçienda hoje em dia.

O Haçienda foi homenageado no filme “24 Hour Party People’ de Michael Winterbotton, com Stev Coogan vivendo Tony Wilson de maneira brilhante e com muitas cenas cuja ação acontece dentro do club.

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Steve Coogan como Tony Wilson em “24 Hour Party People”

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A pista do Haçienda recriada para o filme.

O New Order perdeu tanto dinheiro com o club, que o baixista da banda, Peter Hook, lançou um livro em 2009 intitulado, “How not to run a club” (Como não manter um club), leitura essencial para quem quer conhecer a história mais a fundo. HACIENDA Mesmo com seu fechamento, o Haçienda entrou para o imaginário clubber como um dos locais mais perfeitos para se ouvir house e techno; constantemente o club é citado como dos melhores lugares que já se teve notícia para viver a verdadeira experiência de dançar com toda a intensidade, unidos por uma coisa em comum: o groove.    

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TODAY’S SOUND: DANCETERIA POR ARTHUR MENDES ROCHA

Continuando nossos posts sobre os clubs lendários, hoje falaremos do Danceteria, que bombou na NY dos anos 80, um verdadeiro caldeirão de ritmos e influências.

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O Danceteria já teve sete endereços diferentes, mas o mais famoso deles foi na 30 West 21st Street, de 1982 a 1986, sendo para a new wave o que a disco foi para o Studio 54.

Atraindo uma fauna de artistas, cantores, performers, dançarinos, gays, drag queens, órfãos do 54, frequentadores de after hours, junkies, skinheads, góticos, prostitutas – o club atraía uma clientela mais underground, mais jovem e mais antenada, era o lugar dos modernos.

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Podemos definir o Danceteria como um anti-Studio 54, mais realista, sem aquele glamour excessivo.

Quem frequentou o club fala que a energia lá era muito especial, o lugar era extremamente fashionable e os managers eram Rudolf Pieper (de origem alemã) e Jim Fouratt (figura influente da cena, também dono do Hurrah) para agendar diversos shows e atrações para o lugar. Sempre o que se procurava é que as bandas fossem avant-garde, que mostrassem algo novo, a maioria das bandas que estouraram nos anos 80 fez sua estreia lá.

Turma que frequentava o Danceteria, incluindo o dono, Rudolf, cantando no canto esquerdo.

Turma que frequentava o Danceteria, incluindo o dono, Rudolf, cantando no canto esquerdo.

O Danceteria era grande, possuía seis andares e um elevador, no qual já trabalhou o rapper LL Cool J e a atriz Debi Mazaar (de “Goodfellas” e “Entourage”) como ascensoristas.

Nos diversos andares estavam distribuídos:

Primeiro andar – o chamado andar da performance, com palco para shows e uma pistinha;

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Segundo andar – onde ficava a pista de dança principal;

Terceiro andar – Lounge, Bar, Restaurante e Video Lounge (o vídeo era novidade, foi dos primeiros espaços a apostar nisto e além de videoclipes havia muita videoarte e experimentações feitas no formato);

Quarto andar – Sala VIP, mas que possuía uma política democrática, qualquer um podia entrar desde que estivesse arrasando no visual;

danceteria - fashion

Quinto andar – Sala decorada em diferentes temas, dependendo da noite;

E o rooftop, o terraço que funcionava no verão geralmente e que ficava localizado no 13º andar, bem como o basement, o porão, onde poderia haver coisas como o club Batcave de Londres funcionando por uma noite.

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O DJ de maior destaque foi Mark Kamins (M.K.), que faleceu em 2013, e que fazia uma pista surpreendente, misturando diversos estilos como new wave, pop, punk, hip-hop, soul, disco, dub reggae e tudo mais que fizesse o público dançar até altas horas da madrugada.

Mark Kamins, o DJ oficial do Danceteria na sua época auge

Mark Kamins, o DJ oficial do Danceteria na sua época auge

Inclusive foi lá que os Djs tocavam até 12 horas sem parar, Kamins era acompanhado primeiramente por Sean Cassette (que tocava punk), depois por Jody Kurilla, e no primeiro andar a DJ era Anita Sarko, figura lendária da noite nova-iorquina, tendo sido DJ do Mudd Club, e que se suicidou recentemente.

Foi no Danceteria que Madonna foi descoberta, já que era frequentadora assídua,  trabalhava meio período como encarregada da chapelaria e foi namorada de Kamins, que produziu seu primeiro single, “Everybody”.

Madonna fotografada no Danceteria por sua amiga Maripol

Madonna fotografada no Danceteria por sua amiga Maripol

Abaixo vemos a primeira apresentação de Madonna, sua estreia nos palcos, que não poderia ser em outro lugar que não fosse o Danceteria, em 1982, num palco pequeno, sem produção nenhuma; um momento histórico para aquela que seria a maior estrela pop de todos os tempos:

Inclusive foi no club que ela foi apresentada a Seymour Stein, o dono do selo Sire, e que assinou contrato para ela gravar seu primeiro disco.

O Danceteria também foi utilizado numa importante cena do filme de Madonna, “Desperately seeking Susan” (Procura-se Susan desesperadamente), na qual ela dança ao som de seu hit ‘Into the groove”:

Mas nem só de Madonna vivia o Danceteria, o lugar era o preferido da geração de artistas que surgia naquele momento, incluindo Klaus Nomi, Jean Michel-Basquiat,Billy Idol, Keith Haring, B-52’s, Nick Cave, The Smiths, Depeche Mode, Bauhaus, Sonic Youth, RuPaul, The Cult, The Jesus & Mary Chain, Philip Glass, Diamanda Galas, A Certain Ratio, Richard Hell, Rolling Stones e muitos outros.

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Muitos destes também se apresentaram no club, bem como performers underground como Joey Arias, John Sex, Alexis del Lago, Kenny Scharf (que se transformou em um artista famoso), Kembra Pfahler (antes de Voluptuous Horror of Karen Black), Ann Magnuson, Wendy Wild e muitos outros.

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Performance de Kembra Pfahler no Danceteria

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Performers do Danceteria, entre eles Kenny Scharf (no canto direito)

Sade, além de ter trabalhado rapidamente como atendente no bar, fez sua estreia americana no palco do Danceteria.

Flyer do primeiro show americano de Sade no Danceteria

Flyer do primeiro show americano de Sade no Danceteria

Os programas mais legais faziam programas especiais lá, como o The Tube, apresentado por Jools Holland (que faria anos mais tarde o conceituado “Later with…”) e Leslie Ash, onde eles nos mostram o club por dentro e até entram na cabine do DJ Mark Kamins:

Bem como o programa ‘New York Dance Stand” mostrando dançarinos e frequentadores (como Diane Brill) do club, em 1983:

O próprio décor do Danceteria era bem menos luxuoso que do Studio 54, as paredes eram grafitadas, iluminação mais simples, o que chamava atenção era mesmo o clima das pessoas se divertindo, dançando com passos mais influenciados pelo hip-hop e punk.

Não podiam faltar músicas como:

“Love Tempo” do Quando Quango

‘Big Business’ de David Byrne (com remix de M.K.)

“Cavern’ do Liquid Liquid:

‘Spacer Woman’ do Charlie:

M.K. foi um dos primeiros DJs internacionais a acreditar no groove de Jorge Bem com “Taj Mahal”:

O club ficava aberto das oito da noite até às oito da manhã e o mix dos DJs era realmente o que tornou este lendário, pois misturava as diversas novidades da música, selos como Factory, 4AD, Rough Trade, mais o funk de James Brown, a disco divertida do Boney M, isto fazia as pessoas dançarem sem parar a um som totalmente eclético.

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A receita de sucesso do club era também o seu staff, a mistura certa entre DJs, atendentes do bar, garçonetes, seguranças, faxineiros, enfim, tudo funcionava de maneira harmônica e precisa – as pessoas que lá trabalhavam eram escolhidas a dedo.

Danceteria

Além de Mazaar, Madonna, Sade, lá também trabalharam artistas como Basquiat, Keith Haring e os Beastie Boys como ajudantes de garçom e mais Karen Finley (cantora e performática) como garçonete.

Basquiat e Keith Haring, dois habitués do Danceteria

Basquiat e Keith Haring, dois habitués do Danceteria

Uma das ascensoristas, Cheyne, até foi cantora na música “Call me Mr. Telephone”, produzida por M.K.:

O Danceteria foi mais que um club, foi um estilo de vida, ele determinou as diretrizes dos próximos clubs que se seguiram; foi dos primeiros lugares a apostarem em bandas inglesas pouco conhecidas nos EUA, como o New Order. MK. acabou fazendo muito isso: tornar as músicas inglesas mais adaptadas ao gosto americano, através de seus próprios remixes como o de ‘Too shy” de Kagajoojoo:

O club também foi o precursor em ritmos como o electro, que dava seus primeiros passos em hits como “Planet Rock’ do Afrika Bambaata e ‘Set it off” do Strafe:

M.K. sinaliza Larry Levan (do Paradise Garage) como sua principal influência, o de fazer com que músicas que seriam totalmente diferentes, combinarem entre si. O som que rolava no Danceteria transcendia os gêneros mais conhecidos como o rock e a disco

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Como o próprio M.K. declarou: “O Danceteria foi um destes momentos na História onde todo estavam no mesmo lugar, na hora certa e todos se alimentavam um do outro”.

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O Danceteria teve várias sobrevidas; abriu em três locações em NY e quatro nos Hamptons, tendo a última fechado em 1995. Hoje o local mais icônico, que fechou em 1986, se transformou em um condomínio de luxo.

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