“Shadow of a doubt’ (A Sombra de uma dúvida) não é dos filmes de Hitchcock mais badalados, mas era o preferido do mestre do suspense.
A produção é de 1943, já em sua fase americana, e estrelada por dois atores famosos na época: Joseph Cotten (que já vinha de “Cidadão Kane” e “The Magnifcient Ambersons”, ambos de Orson Welles) e Teresa Wright (que logo em seguida faria o premiado “The Best years of our lives”).
Os dois têm o mesmo nome no filme, ambos chamam-se Charlie: ele é o tio Charlie e ela é sua sobrinha Charlie.
O filme gira em torno deste misterioso tio, adorado pela sobrinha, mas que na verdade esconde um terrível segredo.
“Shadow of a doubt” começa com a sobrinha entediada, já que vive em uma cidade pequena (Santa Rosa) e seu desejo em ter a visita do tio que ela adora e que sempre a anima.
Seu desejo é realizado com a visita do tio, mas este (sem saber) estava sendo perseguido por dois detetives disfarçados de jornalistas, que acabam deixando dúvidas na cabeça de sua sobrinha.
Os detetives estão à procura do assassino de viúvas, um sujeito que andava matando senhoras ricas para ficar com seu dinheiro e o tio Charlie é um dos suspeitos.
A sobrinha não quer acreditar que seu tio talvez seja o assassino e o jeito de Hitchcock lidar com esta desconfiança é que torna o filme intrigante.
Em uma das cenas, o tio Charlie vê uma notícia do jornal sobre a morte de uma viúva e tenta esconder isto da família, arrancando a notícia e gerando a suspeita da sobrinha.
Pequenos detalhes como um anel de esmeralda que o tio a presenteia e que contém duas iniciais também gera uma desconfiança.
Outra cena bem hitchcokiana é a que a sobrinha assobia uma valsa e vem a descobrir que esta é a “Merry Widow Waltz”, ou seja, a valsa da viúva (em referência às viúvas que o tio assassinava).
Joseph Cotten está brilhante como o tio Charlie, com esta dualidade entre o bem e o mal, seu carisma e cinismo, seu ar sinistro, como nesta cena do jantar onde ele fala mal das viúvas (prestem atenção no seu olhar final para a câmera):
Hitchcock não era o mestre do suspense à toa, ele cria climas que nos surpreendem, cada vez mais o tio vai tendo ações que o tornam mais suspeito. Como na cena em que ele ameaça a vida da própria sobrinha ao trancá-la na garagem com um motor ligado na ausência da família.
Uma das coisas que mais gosto em seu estilo, é a maneira com que ele vai nos envolvendo em suas tramas, esta forma dele agitar uma pacata vida de uma família americana, quando iria-mos desconfiar que um tio tão dedicado esconde um frio assassino?
Vejam esta cena, onde o tio Charlie fala para sua sobrinha, que está acostumada com uma vida normal, o que significa a presença dele:
O diretor cria aqui o seu próprio filme noir, em p&b, com cenas em ruas escuras, utilização de sombras, contrastes, lidando com o instinto assassino e dark que alguns seres humanos escondem dentro de si.
Na famosa entrevista que Hitchcock concedeu à Truffaut, que virou livro, ele fala da cena em que o tio Charlie chega de trem, cercado de fumaça negra, e que isto era o prenúncio do mal.
Hitchcock usa e abusa de seus famosos planos de câmeras, como os close-ups para pontuar uma cena ou algo que não havíamos percebido.
E também os tilt shots, os planos que filmam de diferentes ângulos, como de cima para baixo, para acentuar a tensão de determinada cena.
“Shadow of a doubt” não nos mostra uma redenção final de sua heroína, ele trabalha com as ambigüidades, com a perda da inocência através da absorção da culpa; uma obra brilhante.




































































