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Today’s Sound: Shadow of a Doubt por Arthur Mendes Rocha

“Shadow of a doubt’ (A Sombra de uma dúvida) não é dos filmes de Hitchcock mais badalados, mas era o preferido do mestre do suspense.

A produção é de 1943, já em sua fase americana, e estrelada por dois atores famosos na época: Joseph Cotten (que já vinha de “Cidadão Kane” e “The Magnifcient Ambersons”, ambos de Orson Welles) e Teresa Wright (que logo em seguida faria o premiado “The Best years of our lives”).

Os dois têm o mesmo nome no filme, ambos chamam-se Charlie: ele é o tio Charlie e ela é sua sobrinha Charlie.

O filme gira em torno deste misterioso tio, adorado pela sobrinha, mas que na verdade esconde um terrível segredo.

“Shadow of a doubt” começa com a sobrinha entediada, já que vive em uma cidade pequena (Santa Rosa) e seu desejo em ter a visita do tio que ela adora e que sempre a anima.

Seu desejo é realizado com a visita do tio, mas este (sem saber) estava sendo perseguido por dois detetives disfarçados de jornalistas, que acabam deixando dúvidas na cabeça de sua sobrinha.

Os detetives estão à procura do assassino de viúvas, um sujeito que andava matando senhoras ricas para ficar com seu dinheiro e o tio Charlie é um dos suspeitos.

A sobrinha não quer acreditar que seu tio talvez seja o assassino e o jeito de Hitchcock lidar com esta desconfiança é que torna o filme intrigante.

Em uma das cenas, o tio Charlie vê uma notícia do jornal sobre a morte de uma viúva e tenta esconder isto da família, arrancando a notícia e gerando a suspeita da sobrinha.

Pequenos detalhes como um anel de esmeralda que o tio a presenteia e que contém duas iniciais também gera uma desconfiança.

Outra cena bem hitchcokiana é a que a sobrinha assobia uma valsa e vem a descobrir que esta é a “Merry Widow Waltz”, ou seja, a valsa da viúva (em referência às viúvas que o tio assassinava).


Joseph Cotten está brilhante como o tio Charlie, com esta dualidade entre o bem e o mal, seu carisma e cinismo, seu ar sinistro, como nesta cena do jantar onde ele fala mal das viúvas (prestem atenção no seu olhar final para a câmera):

Hitchcock não era o mestre do suspense à toa, ele cria climas que nos surpreendem, cada vez mais o tio vai tendo ações que o tornam mais suspeito. Como na cena em que ele ameaça a vida da própria sobrinha ao trancá-la na garagem com um motor ligado na ausência da família.

Uma das coisas que mais gosto em seu estilo, é a maneira com que ele vai nos envolvendo em suas tramas, esta forma dele agitar uma pacata vida de uma família americana, quando iria-mos desconfiar que um tio tão dedicado esconde um frio assassino?

Vejam esta cena, onde o tio Charlie fala para sua sobrinha, que está acostumada com uma vida normal, o que significa a presença dele:

O diretor cria aqui o seu próprio filme noir, em p&b, com cenas em ruas escuras, utilização de sombras, contrastes, lidando com o instinto assassino e dark que alguns seres humanos escondem dentro de si.

Na famosa entrevista que Hitchcock concedeu à Truffaut, que virou livro, ele fala da cena em que o tio Charlie chega de trem, cercado de fumaça negra, e que isto era o prenúncio do mal.

Hitchcock usa e abusa de seus famosos planos de câmeras, como os close-ups para pontuar uma cena ou algo que não havíamos percebido.

E também os tilt shots, os planos que filmam de diferentes ângulos, como de cima para baixo, para acentuar a tensão de determinada cena.

“Shadow of a doubt” não nos mostra uma redenção final de sua heroína, ele trabalha com as ambigüidades, com a perda da inocência através da absorção da culpa; uma obra brilhante.

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Today’s Sound: The Night of the Hunter por Arthur Mendes Rocha

Charles Laughton foi um dos grandes atores da época de ouro de Hollywood e sua única incursão como diretor é uma pequena jóia, um filme surreal, assustador, dark: “The Night of the Hunter” (O Mensageiro do Diabo).

O filme foi lançado em 1955, feito sem pretensões, estrelando atores como Robert Mitchum e Shelley Winters, bem como a veterana Lilian Gish (atriz famosa no cinema mudo).

‘Night of the Hunter” não teve sucesso na época, foi um filme que não teve reconhecimento merecido e hoje é considerado um dos grandes clássicos do cinema americano.

É compreensível entender seu fracasso: a América vivia os anos Eisenhower e o filme é sobre um serial killer que matava suas esposas, que pregava a religião e que de repente era um monstro.

Em muitas listas de melhores filmes, ele é tido como a melhor estréia de um diretor novato, sendo que Laughton, quando o filme foi mal recebido, prometeu nunca mais voltar a dirigir um filme.

A estória gira em torno de um psicopata, Harry Powell (Mitchum), que em sua estada numa prisão, acaba sabendo, por um colega de cela, que uma fortuna de um roubo está escondida em uma boneca, pertencente à filha do mesmo.

Ao sair da prisão, Harry mata seu colega de cela e se faz passar por um reverendo e se aproxima da viúva (Winters) e de seus dois filhos. Só que o menino desconfia das reais intenções do reverendo e passam praticamente fugindo dele o filme todo.

O filme é baseado no romance do mesmo nome de autoria de Davis Grubb e na verdadeira história de Harry Powers, enforcado em 1932 pelo assassinato de uma viúva e seus dois filhos.

Quando Laughton adquiriu os direitos sobre o livro, ele encontrou-se e trocou várias correspondências com Grubb. Este acabou lhe enviando vários desenhos de como imaginava as cenas e que acabaram por servir como uma espécie de storyboard para o diretor.

“Night of the Hunter” diferencia-se dos filmes da década de 50, já que é obscuro, lírico e expressionista, servindo de grande influência no trabalho de diretores como David Lynch, Jim Jarmusch, os irmãos Coen, Terrence Malick, entre outros.

Uma das cenas mais geniais do filme é o da cena da fuga no barco, filmada em glorioso p&b, num misto de onírico com macabro, de sonho e pesadelo. Sapos, teias de aranha, coelhos são filmados em deep-focus, como que assistindo as crianças passearem com o barco:

Um dos aspectos mais bacanas do filme é que ele é contado sob a visão das crianças, ele é bem assustador, pois mostra bem o isolamento destas.

Robert Mitchum dá um show de interpretação como Harry, já que se passa como bondoso, ele é carismático, charmoso, sexy com as mulheres e na verdade é um assassino frio e calculista.

Entre as imagens icônicas do filme está a de Mitchum com suas mãos, onde em uma está escrito ‘Love” e na outra “Hate”:

Charles Laughton usa toda sua experiência como ator para criar uma ambientação sinistra, já que o filme é cheio de climas, sombras, cenas noturnas, silhuetas, os contrastes do preto e branco são bem definidos e tudo é filmado com brilhantismo pelo ator/diretor.

Laughton trabalhou com diretores como Hitchcock, Kubrick, Billy Wilder, além de ter recebido o Oscar de melhor ator em 1934. Ele utiliza técnicas do cinema mudo em seus takes, já que seus planos são longos e o corte só acontecia quando o rolo de filme da câmera terminava.

Além disso, ele utiliza inspirações de diretores do cinema mudo como D.W. Griffith e também do expressionismo alemão. Inclusive utilizando no elenco uma das atrizes preferidas de Griffith, Lilian Gish, como na cena abaixo:

Ele também se cercou de uma equipe competente para lhe ajudar neste seu primeiro filme: o a fotografia de Stanley Cortez (que já havia trabalhado com o deep-focus em “The Magnificient Ambersons) e a música de Walter Schumann (que pontua as cenas maginificamente), entre outros.

O filme foi feito com um orçamento restrito, em poucas semanas, já que os direitos para a compra do romance haviam sido bem caros.


Perversão e  hipocrisia, estes assuntos não eram comuns na época e são os temas principais deste pequeno grande filme de Laughton “Night of the Hunter’, um filme que merece o status que adquiriu de cult ao decorrer dos anos.

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Today’s Sound: Dr. Mabuse por Arthur Mendes Rocha

Fritz Lang nos deu várias obras-primas, mas uma delas tem uma importância histórica especial no cinema expressionista alemão dos anos 20: “Dr. Mabuse”.

“Dr. Mabuse” conta a história de um farsante, uma das criaturas mais repugnantes que o cinema já criou, ele é perverso, do mal mesmo, capaz de enganar a tudo e a todos.

Este personagem foi criado por Norbert Jacques, que escreveu o livro “Dr Mabuse, Der spieler” (Dr Mabuse, o jogador) em 1921, mas ficou famoso mesmo nos três filmes de Fritz Lang. Os dois filmes seguintes são “O testamento de Dr.Mabuse’ (1933) e “Os Mil olhos de Dr. Mabuse”.

Mabuse usa as mais incríveis técnicas para cometer seus crimes, como é especializado em telepatia, ele hipnotiza suas vítimas para cometerem os crimes no lugar dele.

Ele também é um mestre nos disfarces, podendo fazer-se passar por qualquer pessoa e sair impune.

O livro foi adaptado, em 1922, pelo grande cineasta alemão Fritz Lang, uma verdadeira lenda do cinema, e sua esposa Thea Von Harbou. Lang é uma referência em cinema, seus filmes são influência direta em muitos cineastas, sejam os mudos, os falados e os feitos quando se mudou para os EUA.

Mas foi com “Dr Mabuse’ que Lang mostrou o seu talento ao mundo e o filme foi um sucesso de público e crítica.

Como o filme tem quatro horas de duração, ele acabou sendo dividido em duas partes: “Dr.Mabuse, the gambler, na image of the times” e “Inferno, people of the times”, cujas cenas podemos ver abaixo:

O personagem é interpretado brilhantemente pelo ator alemão Rudolf Klein-Rogge, que repetiu sua performance também na continuação de 1933. Rudolf também é conhecido por seu papel como o cientista de ‘Metropolis” (outra obra-prima de Lang).

No filme, Mabuse tem uma rede de criminosos viciados em cocaína, com os quais bola planos mirabolantes para enriquecer na bolsa de valores. Para isso, ele manipula o milionário Edgar Hull, fazendo o perder muito dinheiro em jogos.

É aí que entra o comissário de polícia Von Wenk, que fará tudo para descobrir e capturar o nefasto Dr. Mabuse.

Em uma das cenas do filme, Mabuse (disfarçado como Sandor Weltemann) impressiona uma platéia com suas ilusões de ótica:

O filme mostra a predileção de Lang em falar de personagens obscuros, lidar com o submundo, com crimes e as perversões humanas.

“Mabuse’ é um filme mudo, mas tem muita ação, estamos sempre sendo surpreendidos pelas reviravoltas na história, é um jeito muito moderno de filmar, mesmo tendo sido nos anos 20.

O filme tem uma conotação política forte, já que a Alemanha enfrentava uma situação difícil, com muita corrupção e autoritarismo militar. Lang faz esta previsão no filme, prevendo um futuro dark, um governo obcecado por poder, que perde a sua identidade neste processo (como o próprio Mabuse).

Falando em identidade, Mabuse é a própria identidade irreal, ele transita por todos, sempre trocando disfarces, fazendo se passar por quem não é, sempre nos colocando na dúvida de sua real identidade. Ele quer entrar em todos os círculos e na seqüência em que se passa por todos os integrantes de uma roda, mostra-nos que a maldade pode estar em qualquer lugar ou pessoa.

O filme, por ser muito antigo, está em domínio público, logo pode ser visto no youtube, pelo menos a parte 1, conforme link abaixo:

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