“Vampyr” é um filme com toques surrealistas que lida com vampirismo e foi dirigido por Dreyer em 1932.
O cineasta Carl Theodore Dreyer, o mesmo de “The Passion of Joan of Arc” e “Ordet”, lançou-se nos contos de terror com este belo e estranho filme, já que ele não chega a ser totalmente mudo e contém poucos diálogos em inglês, alemão e francês.
O financiamento para o filme foi conseguido através do Barão Nicolas de Gunzburg, que estrelou o filme sob o pseudônimo de Julian West, fazendo o papel de Allan Gray, um estudante do oculto que investiga estranhos acontecimentos em um vilarejo.
“Vampyr” foi livremente inspirado nas estórias sobrenaturais e góticas de “In a Glass Darkly’, escritas por J. Sheridan Le Fanu em 1872, especialmente em “Carmilla”, um conto que influenciou o próprio Stoker (para criar Drácula), bem como Vadim e Kümel (de ‘Daughters of Darkness) sobre uma vampira lésbica e também em ‘The Room in the Dragon Vollant”, conto sobre uma pessoa que é enterrada viva.
O mais interessante do filme é sua atmosfera: Dreyer consegue que penetremos neste mundo sob a ameaça vampiresca com cenas de extremo apelo visual, fotografia meio embaçada, efeitos incríveis para a época como sombras dançando, caveiras que se mexem e mais.
A estória é bem sobrenatural, com Allan Gray chegando no vilarejo de Courtempierre onde um velho lhe deixa um pacote escrito: “para ser aberto até a minha morte”.
De posse do pacote, ele é guiado por sombras até um castelo onde encontra uma velha senhora e o médico do vilarejo e chega numa casa de campo, vendo através de uma janela o velho que lhe deixou o pacote sendo atingido por um tiro.
Sem entender nada, ele acaba conhecendo Giséle (Rena Mandel) e esta lhe fala que sua irmã, Léone (Sybille Schmitz), está muito doente e estes a vêem andando lá fora e quando esta cai inconsciente, Gray observa duas mordidas em seu pescoço.
Ele resolve abrir o pacote e dentro há um livro sobre demônios chamados “vampyrs”.
Gray descobre assim que Léone é vítima de um “vampyr” e doa seu sangue para ajudá-la.
Léone também é ajudada pelo médico e Gray o reconhece. Giséle acaba desaparecendo e ele desconfia do envolvimento do médico e resolve segui-lo. Gray tem uma visão dele próprio sendo enterrado vivo.
Aos poucos Gray vai enfrentando perigos até descobrir o túmulo da vampira Marguerite Chopin (da qual o médico é servo) e até o desfecho final no moinho.
O filme encontrou dificuldades em ser rodado, pois além da crise na indústria de cinema dinamarquesa, era o primeiro filme sonoro de Dreyer e este teve que aprender em Londres a como lidar com esta nova tecnologia.
A grande maioria dos atores de “Vampyr” são não-profissionais encontrados em bares, cafés e nos metrôs parisienses da época.
O diretor de fotografia é Rudolph Maté, que faz um trabalho extraordinário e que já havia colaborado com o diretor em “The Passion of Joan of Arc”, um clássico do cinema.
‘Vampyr” foi todo rodado em locações, não há cenas de estúdio e esta era a vontade de Dreyer, que desejava as cenas com atmosferas de sonhos (ou pesadelos).
O diretor já queria imprimir um estilo diferente a “Vampyr” e quando Maté lhe mostrou um take meio embaçado, indistinto, ele chegou à conclusão que era exatamente o que ele queria.
Inclusive Maté filmou várias cenas com a ajuda de uma gaze presa na lente para adquirir o efeito desejado por Dreyer.
Assim o filme é considerado um marco no cinema experimental, Dreyer queria fazer algo novo e diferente na época e conseguiu.
Além disso, para criar o visual do filme, ele se inspirou em obras de arte de artistas como Goya.
O filme não foi bem compreendido na sua época, sem dúvida ele era avant-garde, seu ritmo é lento, sua narrativa não era como nos outros filmes de terror da época.
Hoje em dia o filme teve seu reconhecimento com uma reedição em dvd pela Criterion em uma embalagem luxuosa, com documentários, extras, livreto (com o roteiro original), além do usual cuidado da distribuidora com remasterização de imagem e som.
O cineasta Nicholas Winding Refn (de “Drive”) considera “Vampyr” um dos melhores filmes que viu, assistindo-o toda vez que vai filmar e declarando que o filme continua sendo um mistério para ele.
Vale a pena redescobrir este filme, que sumiu na época dos lançamentos de filmes como “Drácula” e ‘Frankenstein” nos anos 30, e que visto agora mostra todo seu impacto visual.
E para não ter desculpa de ver, ele está todo disponível no link abaixo:
















































































