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TODAY’S SOUND: STYLE COUNCIL POR ARTHUR MENDES ROCHA

Após o fim do The Jam, Paul Weller queria formar um grupo que combinasse sua paixão por jazz, soul, R&B, além de filmes franceses e aquela pitada da cultura dos cafés europeus dos anos 60, criando assim o Style Council.

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O Style Council era um sopro de novidade nos charts europeus do final da década de 80, juntamente com Everything but the girl e Sade, que passaram a ser denominados de new-bossa na época.

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O grupo era formado por Weller mais Mick Talbot, instrumentista de primeira e ex-integrante de bandas como The Bureau e Dexy’s Midnight Runners, além de ter participado de algumas apresentações com o The Jam.

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Weller recrutou Talbot por gostarem do mesmo tipo de música, além do som que Talbot tirava do órgão Hammond, que era exatamente o que ele procurava para seu novo projeto.

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Seu primeiro single foi “Speak like a child”, uma grata surpresa para um som pop mais refinado, com influências de funky e do soul da gravadora Stax:

As primeiras apresentações do duo foram em concertos beneficentes ou por alguma causa política que eles apoiavam, já que uma das facetas do Style Council era justamente um posicionamento político contra o governo Thatcher.

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Depois de lançarem o EP “À Paris”, no qual declaram seu amor pela cultura parisiense, o SC arrecadou mais dois integrantes: Dee C. Lee (que viria a se tornar esposa de Weller), que contribuía com os backing vocals (ela já havia trabalhado com o Wham!) e o baterista Steve White, que havia trabalhado com Bill Bruford, do Yes e King Crimson.

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Quanto ao estilo de vestir, o Style Council era extremamente exigente, optando sempre por tonalidades como preto & branco, padronagem príncipe de Gales, tons pastéis, além de ternos bem cortados, muito trench-coat, pulôveres e sweaters, gravatas e lenços estampados, mocassins; eles davam muita importância para o visual.

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Isto também valia para suas capas e material gráfico, feitos com fontes e letterings elegantes, privilegiando fotos em locações bacanas (de preferência em Paris), em situações em o que importava era estar de bem com a vida, como andar de lambreta por exemplo.

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Em 1984, eles lançam seu novo single, “My ever changing moods”, que mostra a banda indo para uma direção mais dramática, melódica e soulful:

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Estava tudo ponto para eles lançarem seu debut, o álbum “Café Bleu”, que misturava cnções pop, instrumentais, rap, além de uma vibe de canções francesas e atitudes beatniks, além de canções atmosféricas como “The Paris Match”, dueto com Tracey Thron do Everything but the girl:

O álbum foi um grande sucesso, mostrando que Weller havia deixado o The Jam para trás e vivia um novo momento em sua carreira.

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Outro destaque do álbum era “Headstart for Happiness”, aqui numa apresentação no programa The Tube:

Depois de excursionarem pela Europa e EUA, o grupo lança seu próximo single com influências de cantores como Curtis Mayfield e Sly Stone, ‘Shout to the top”, escolhida como parte da trilha do filme “Vision Quest” e tonando-os populares também na América:

Seu segundo álbum foi lançado em 1985, “Our favorite shop”, com menos influências jazzísticas e mais coeso que o disco anterior.

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O álbum teve uma ótima exposição na mídia e vendeu bem na Europa, Austrália e Japão, porém não indo bem nos EUA, inclusive sendo rebatizado de “The Internationalists”.

Uma das faixas que chamaram a atenção foi “With everything to lose”, que vemos no vídeo abaixo numa apresentação na versão inglesa do Soul Train:

No mesmo ano, em julho, é realizado o grande evento “Live Aid”, o maior concerto de rock e pop já realizado em todo o mundo, com apresentações simultâneas nos EUA e Europa e no qual o Style Council participa cantando um de seus hits, ‘You’re the Best thing”:

Logo após o Live Aid, Weller funda junto com artistas como Billy Bragg e The Communards, o Red Wedge, iniciativa que procurava popularizar ideais de esquerda.

A próxima empreitada do grupo foi uma participação na trilha do filme ‘Absolute Beginners”, baseado no livro de um de seus heróis, Colin MacInnes, mas que apesar do elenco e trilha, acabou sendo um fracasso de público e crítica.

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Depois de um álbum conceitual, “The Cost of loving”(conhecido como o álbum laranja), e um mini filme, “JerUSAlem”, o SC se preparava para um novo álbum, ‘Confessions of a pop group”,apesar do momento de recessão e um menor interesse por sua música, já que Weller nunca havia sido perdoado por ter acabado com o The Jam.

Abaixo, uma apresentação do novo álbum na TV inglesa, em um especial de dez minutos:

Nesta época, Weller começa a se interessar pelo novo ritmo que dominava os clubs londrinos, a house music, com toda sua cultura de DJs e batidas irresistíveis.

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Assim, ele se cerca de DJs como Norman Jay e Juan Atkins nos remixes, e começa a preparar seu novo disco, ‘The Modernists”, álbum rejeitado pela sua então gravadora, a Polydor, e que somente foi lançado independente e como parte do box set “The complete adventures of Style Council’.

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Neste disco, ele regravou o clássico “Promissed land”, que chegou a ser lançado como single, mas isto não bastou e assim o Style Council resolve fazer seu último concerto no Royal Albert Hall em 1989 e logo em seguida, decretando o fim da banda.

Assim, Weller lança-se numa carreira solo de sucesso e Talbot em trabalhos paralelos, como o grupo The Players.

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Era o fim de um dos grupos menos reconhecidos do pop, pouco lembrado hoje em dia, mas que fez toda a diferença na época com seu som elegante, cheio de groove, influências bacanas e que merece ser redescoberto.

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Today’s Sound: Antony Hegarty por Arthur Mendes Rocha

Antony & The Johnsons é a banda liderada por Antony Hegarty e seus vocais agudos, melódicos, de uma beleza estranha, quase como um lamento, tornando-os uma das bandas mais interessantes da cena atual.

Antony nasceu na Inglaterra, mas foi criado na Califórnia e mais tarde mudou-se para NY, onde suas ambições artísticas e sexualidade seriam melhores compreendidas.

Ele sempre teve uma sexualidade ambígua, já que se apaixonara desde cedo pela imagem de Boy George no auge de sua fase andrógina no Culture Club.

Antony começou a despontar com os Blacklips, uma banda de cabaret que se apresentava em lugares pequenos e na qual ele vestia-se num misto de Isabella Rosselini em “Blue Velvet” e a imagem da capa do single “Torch” do Soft Cell, como vemos abaixo:

Logo em seguida, ele forma o Antony and The Johnsons, banda que começa a ser notada por um pequeno selo, Durtro, que lança seu primeiro álbum em 1998 intitulado apenas ‘Antony and the Johnsons”.

O single do álbum era “Cripple and the Starfish”:

O álbum passou meio despercebido, sendo relançado quando a banda começou a fazer sucesso.

Em 2001, eles lançam um EP, ‘I Fell in Love with a Dead Boy”, que continha uma versão de “Mysteries of Love” de Angelo Badalamenti e David Lynch (e que fazia parte da trilha de “Twin Peaks”):

Este EP foi apresentado à Lou Reed, que caiu de amores pelos vocais de Antony e o convidou a participar de seus discos ‘The Raven” e ‘Animal Serenade”, além de excursionar com ele em 2003. Abaixo eles cantam juntos no programa de Jools Holand:

Depois de lançarem mais alguns EPs, a banda lança em 2005 seu segundo álbum “I am a Bird Now”, disco este responsável pelo seu estouro mundial e pela conquista do prêmio Mercury, prestigiado prêmio inglês para artistas iniciantes. A capa era uma foto da drag Candy Darling, estrela da Factory e dos filmes de Andy Warhol, em sua cama.

Um dos destaques do álbum era “Hope There’s Someone”:

O álbum teve participação dos ídolos de adolescência de Antony como Lou Reed e Boy George (com o qual canta abaixo ‘You are my Sister”), além de Devandra Banhart e Rufus Wainwright.

Neste meio tempo, ele ainda apareceu no filme de Steve Buscemi ,“Animal Factory”, como um presidiário andrógino e também cantando no começo do filme franco/belga “Lado Selvagem”:

Nos anos seguintes, Antony excursionou pelo mundo com shows , além de participar do disco “Volta” de Bjork e do documentário “I’m your Man’ sobre Leonard Cohen.

Além disso, ele participou do documentário de Charles Atlas, “Turning”, no qual treze mulheres dão depoimento durante um concerto de Antony and the Johnsons. O filme foi muito bem recebido pela crítica especializada.

Em 2008, ele participa como vocalista convidado no hit das pistas “Blind’, do grupo Hercules & The love affair”. Abaixo ele interpretando a música (com o Hercules) no festival Meltdown neste ano:

Em 2009, eles lançam seu novo trabalho, “The Crying Light”, atingindo o primeiro lugar de discos independentes europeus e falando sobre natureza, morte, futuro, paisagens e amor. Um dos singles de destaque era “Epilepsy is Dancing”:

Numa das apresentações deste novo álbum, Antony fez um concerto com a Manchester Camerata no Manchester Opera House, transformando o hall do teatro em uma caverna de cristais com a concepção artística de Chris Levine.

Esta apresentação aconteceu também em salas de concertos em Roma, Paris, Lyon e até no Festival de Jazz de Montreux, sendo que seu figurino era assinado por Ricardo Tisci, estilista da Givenchy.

Uma das características da personalidade de Antony é seu engajamento em causas ecológicas e a defesa de que o mundo não deve ser governado apenas pelos homens e sim pelas mulheres, já que a humanidade até agora só fez foi prejudicar o planeta.

Além disso ele também culpa as religiões patriarcais pelo colapso da relação de sustentabilidade entre a humanidade e a terra.

Portanto, suas letras vêm carregadas destes sentimentos de mudança, além de poesia e influências líricas.

Em 2010, ele lança mais um EP, desta vez com covers de Dylan, ‘Pressing On”, e Lennon, “Imagine”.

Também em 2010, ele lança o álbum “Swanlights”, acompanhado do lançamento do livro do mesmo nome mostrando os dotes artísticos de Antony, com desenhos, pinturas, colagens e fotografias.

Um dos destaques do novo disco era “Thank you for your Love”:

Em janeiro deste ano, Antony e o MOMA (Museum of Modern Art) se uniram para uma performance esgotada de “Swanlights” no Radio City Music Hall de NY.

Em julho ele faz a curadoria do festival Meltdown, com performances e apresentações de artistas como Elizabeth Fraser (Cocteau Twins), Diamanda Galás, Laurie Anderson, entre outros.

Em Agosto de 2012, ele lança o álbum ao vivo “Cut the World”, uma espécie de retrospectiva sinfônica do grupo acompanhado pela Danish National Chamber Orchestra.

A faixa ‘Cut the World’ foi escrita especialmente para a produção de Bob Wilson, “The Life and Death of Marina Abramovic” e o vídeo  tem a participação da própria Abramovic, além do ator americano Willem Dafoe e da atriz alemã Carice Van Houten, como vemos abaixo:

Abaixo uma foto dele e o elenco desta produção cumprimentando a Rainha Beatrix:

Antony com seu visual privilegiando o preto, geralmente com seus cabelos compridos e bem escuros é uma persona única na música da atualidade e cada trabalho seu é sempre revigorante e surpreendente.


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Today’s Sound: Rules of the Game por Arthur Mendes Rocha

“The rules of the game” (‘La Règle du Jeu” em francês e “A Regra do Jogo” em português) é a obra-prima de Jean Renoir e considerado por todos os críticos como um dos filmes mais importantes da história do cinema.

O filme fala da alta burguesia francesa antes da segunda guerra mundial, tendo sua ação quase toda centrada numa luxuosa casa de campo, “La Coliniere”, em Sologne.

A produção é de 1969 e foi adaptada de uma popular comédia de erros do século XIX, ‘Les Caprices de Marianne” de Alfred de Musset.

Renoir enfrentou muitos problemas na época de lançamento do filme, já que o filme foge um pouco de seu estilo naturalista, bem como faz uma crítica à classe dominante, retratando-a como cheia de caprichos e não medindo as conseqüências de seus atos.

Mas na verdade, “A Regra do Jogo” é um exercício estilístico do cinema, ele brinca com a classe alta e seus subordinados, misturando-os e fazendo-os interagir, coisa que vemos com naturalidade hoje nas novelas.

Na época, o filme causou muitas controvérsias, mas com o passar do tempo, foi ganhando respeito de vários cineastas tais como Bertrand Tavernier, Paul Schrader, Win Wenders, entre outros.

O filme também teve algumas inovações estéticas como movimentos de câmera (lembrem-se que ainda não existia a steady cam) e uso de deep focus (dando igual importância ao que se passa na frente bem como ao que se passa ao fundo na mesma cena) e tudo isto pode ter confundido o público da época, que não estava preparado.

Olhando hoje, vemos que o filme é bem audacioso, já que o tema central é a infidelidade de um casal, envolvendo seus amantes, novos pretendentes, seus empregados e todos os dramas que acontecem a partir daí.

A estória gira em torno do casal Christine (Nora Gregor) e Robert de La Cheyniest (Marcel Dalio), sendo que ela é apaixonada pelo aviador André Jurieux (Roland Toutain).

Robert sabe da relação de Christine e André no passado, bem como a fiel criada de Christine, Lisette (Paulette Dubost), que é casada com o zelador da casa de campo dos Cheyniest, Schumacher (Gaston Modot) e também outro amigo do casal, Octave (papel interpretado pelo próprio Renoir).

Robert também tem uma amante, Genevieve (Mila Parély) e a convida par passar o fim de semana no campo, junto com vários convidados do casal, onde se realizará um baile de máscaras.

Renoir mistura vários plots, já que todos convergem para a casa de campo, onde acontecerão várias traições, trocas de identidade e que acabará em um assassinato.

O diretor, que vinha dos sucessos de “A Grande Ilusão” e “A Besta Humana”, ficou bem abalado com a primeira recepção do filme em Paris, onde foi considerado imoral e foi banido das telas francesas.

Uma das exigências dos produtores fora de que o filme fosse encurtado, sendo que Renoir diminui de 94 minutos para 81, diminuindo a importância de seu personagem, Octave, já que este na versão original também se envolve com Christine.

Durante um dos ataques dos aliados, o filme teve parte de seus negativos destruídos, mas em 1959, este foi reeditado para 106 minutos, mediante um cuidadoso trabalho de recuperação, versão esta supervisionada pelo próprio Renoir.

Esta versão foi apresentada em Veneza com sala lotada e o público aplaudiu, o que o próprio diretor declarou que foi uma espécie de vingança pela má recepção do filme na estréia em 1939.

Renoir declarou que procurou imprimir um estilo mais clássico e mais poético ao filme, reescrevendo-o várias vezes e interagindo com seus atores, improvisando, mudando várias vezes o roteiro original.

Na trilha sonora, Renoir utilizou músicas clássicas como Lizst e “The Marriage of Figaro” de Mozary, entre outras.

É difícil determinar um tema apenas no filme, ele passeia por vários gêneros ao mesmo tempo, lidando com todos os tipos de emoções, e o jeito de Renoir encarar a sexualidade na época é genial.

O filme tem várias cenas inesquecíveis tais como: o baile de máscaras, a caçada, o brinquedo musical e principalmente a da dança macabra; como vemos algumas abaixo:

Adorei a crítica do historiador Robin Wood que declara que o momento final mostra a armadilha que Christine cai, a sua volta ao château é como uma prisioneira, não de seu marido, e sim das “regras do jogo”.

Em ‘Gosford Park”, Robert Altman presta uma homenagem direta ao filme, mostrando o confronto da classe alta com seus empregados e tendo ao fundo um assassinato.

Na recente enquete da revista “Sight & Sound”, o filme ficou no quarto lugar dos 100 melhores filmes de todos os tempos, atrás de “Vertigo”, “Cidadão Kane” e “Tokyo Story”.

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